Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos

Homens-bestas. Assim os personagens são descritos na introdução de Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos (Record, 2009), livro de Ana Paula Maia que contém duas novelas. Nelas acompanhamos a trajetória de Edgar Wilson e Erasmo Wagner, um abatedor de porcos e o outro um lixeiro. Convivemos com a desumanidade e niilismo que dão a tônica da vida deles e dos outros ao seu redor. Para esses homens-bestas, a maior satisfação parece ser sobreviver.

O narrador é bastante higiênico, atém-se ao essencial, nunca parece extrapolar os limites do mundo dos personagens. Torna-se invisível perante a trama e o aspecto marginal dos homens-bestas. É um livro que consegue trazer ao leitor uma densidade de imagens, como se a vida ali relatada estivesse muito próxima, quase tangível. O realismo é muito forte, com frases e cenas todas coladas ao mundo criado.

O entretenimento não vem de um interesse pela trama ou pela simpatia aos personagens, mas da sensação de estar assistindo a um documentário sobre uma vida que poderia ser a sua, caso não houvesse nascido num leito mais privilegiado. As histórias são muito orgânicas. As ponderações filosóficas são todas atinentes aos mundos dos personagens, metáforas envolvendo porcos e lixo.

Terminamos com a sensação de que a vida é uma coisa bem complicada, de que há muito mais entre o céu e a terra do que sonha nossa filosofia (seria Hamlet o primeiro realista?). Acabamos de presenciar uma ficção que poderia ser real – e que provavelmente é, tirando as nuances literárias.

Fica a sensação de que Dublinenses, de James Joyce, foi uma forte influência. Os narradores têm o mesmo comportamento, se ausentando quase por completo de enviesar a leitura, como se estivessem programados a não adornar frases, tirando todo o excesso de palavras. Os personagens deste livro de Joyce não são homens-bestas, mas são pessoas imersas em uma realidade que nós leitores captamos, ou, melhor dizendo, temos a sensação de vislumbrar com espanto. O mundo deles é expansível como vidas humanas concretas, e terminamos a leitura com aquela perplexidade típica das grandes obras realistas.

Talvez, e mais provável, seja que Machado de Assis influenciara Ana Paula Maia, já que é um mestre do realismo muito mais popular no Brasil do que Joyce. No entanto, Entre Rinhas possui um visceralismo mais próximo do tom de Joyce em Dublinenses. Há uma crueza muito próxima entre esses dois livros, separados por um oceano e por um século. Os irlandeses dos contos de Joyce podem não ser homens-bestas, mas são condenados a um choque existencial que sugere que o universo é bastante bestial com a raça humana.

É uma conclusão parecida com a que chegamos ao terminar de ler “Pai contra Mãe”, conto machadiano. Realmente, o realismo não é para os fracos.

Ana Paula Maia mostrou-se uma exímia escritora higiênica neste livro, que dentro de seu propósito não poderia ser melhor. A realidade composta é próxima, tragando o leitor para dentro de si. Esses homens-bestas vêm de um mundo árido, violento e insensível. São vidas muito interessantes, talvez por serem tão diferentes da nossa. As dificuldades de se escrever sem firulas foram superadas. Saber escrever também é saber apagar.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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