Station Eleven

Distopias andam na moda há alguns anos — pelo menos desde Jogos Vorazes já não podemos enfrentar uma distopia sem ter alguns lugares-comuns em mente. Station Eleven (2014), de Emily St. John Mandel, foge muito a tais pré-concepções. Originalidade não significa, contudo, qualidade, e vivenciei com Station Eleven a mesma frustração que tive com o filme A Bruxa (2015).

Quando fui assistir a este filme, estava buscando ver um filme de terror. Saí enfezado da sala de cinema, pois, embora seja um ótimo filme, ele não é terror. Hoje reconheço que é uma obra de arte — mas é um suspense atmosférico que só põe medo ou susto em pessoas muito mal acostumadas. O trailer também era bem enganoso, dando a entender que haveria tensão, sustos e pânico (não tem, e é bom você saber para não ter expectativas frustradas na hora de assistir à película).

A mesma quebra de expectativa aconteceu com Station Eleven: o livro é divulgado como sendo ficção científica, mas, a meu ver, está bem distante do esperado neste gênero. Decidi lê-lo após saber que seu grande diferencial perante os demais romances distópicos é que nele a praga veio, detonou tudo e foi embora em menos de um mês. A trama se passa vinte anos após a praga, e a humanidade está se recuperando e reiniciando a vida em sociedade, muito diferente do que era antes, sem nenhuma tecnologia moderna.

No entanto, o foco da narrativa está nos personagens, principalmente antes da praga. A narrativa se envereda mais para tratar de questões como memória, mudança, evolução pessoal; a importância da arte como transcendência versus suas versões comerciais, como publicidade (adivinha o que sobrevive após a praga?); a valorização social de celebridades e seu conflito com as pessoas que vivenciam a fama, etc. O livro é bom, mas deixa muitas questões de world-building de lado, questões que são vitais quando se faz ficção científica. Esta é na verdade um pano de fundo para as explorações humanistas da autora.

Temos, em pequena escala, uma trama mais convencional, onde vemos um profeta do novo mundo (sempre eles), angariando poder com seu carisma e discurso de salvação. Não direi muita coisa para não spoilar. Comento apenas um trecho provocativo: um personagem encontra, num dado momento, uma Bíblia com uma página de uma HQ, onde se lê, algo do tipo “O capitão morreu. Em sua ausência, você deve estar no comando”.

Refleti bastante sobre profetas do pós-apocalipse. Nesta passagem, entrei na mente de autoproclamados profetas: não é razoável pensar que, em um mundo destruído e inóspito, sem traços de civilidade, Deus se ausentou? E em sua ausência, nós devemos tomar seu lugar para construir uma sociedade boa? Sim, é um pensamento estranho, quiçá insano, mas não é absurdo, e talvez alguns profetas realmente pensem assim, como se a bondade houvesse ido embora e eles fossem os responsáveis por resgatá-la.

***

Station Eleven, de Emily St. John Mandel, é uma ficção literária com elementos de ficção científica. Recomendada principalmente  para quem deseja drama e especulação sobre a importância da arte e tecnologia.

 

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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