Roberto Bolaño – Praia

pescador na praia

Vincent Van Gogh. Pescador na praia. Óleo sobre tela. 1882.

Deixei a heroína e voltei ao meu povoado e comecei o tratamento de metadona que me forneciam no posto de saúde e pouca coisa mais precisava fazer exceto me levantar cada manhã e ver tevê e tratar de dormir à noite, mas não podia, algo me impedia de fechar os olhos e descansar, e essa era minha rotina, até que um dia já não conseguia mais e comprei pra mim uma sunga preta numa loja do centro do povoado e fui à praia, com a sunga vestida e uma toalha e uma revista, e coloquei minha toalha não muito perto d’água e logo me estiquei e fiquei um tempo pensando banhar ou não banhar, me ocorriam várias razões para fazê-lo, mas também me ocorriam algumas razões para não fazê-lo (as crianças que se banhavam na beirada, por exemplo), de forma que ao fim passou o tempo e voltei pra casa, e na manhã seguinte comprei um protetor solar e fui à praia outra vez, e mais ou menos às 12 andei pro posto de saúde e tomei minha dose de metadona e saudei algumas caras conhecidas, nenhuma amigo ou amiga, só caras conhecidas da fila da metadona que se surpreenderam comigo de sunga, mas eu não dei a mínima, e logo voltei caminhando à praia e dessa vez criei coragem para nadar, contudo não consegui, mas isso já foi suficiente pra mim, e no dia seguinte voltei à praia e voltei a me ensebar de protetor solar e logo acabei dormindo sobre a areia, e quando acordei me sentia muito descansado, e não havia queimado as costas nem nada de nada, e assim passou uma semana ou talvez duas semanas, não me lembro, o único certo é que cada dia eu estava mais moreno e ainda que não falasse com ninguém cada dia me sentia melhor, ou diferente, que não é o mesmo mas que no meu caso eram parecidos, e um dia apareceu na praia um casal de velhos, disso me lembro com clareza, era visível que estavam há muito tempo juntos, ela era gorda, ou redondinha, e devia estar na casa dos 70 anos aproximadamente, e ele era fraco, ou mais que fraco, um esqueleto que caminhava, creio que isso foi o que me chamou a atenção, porque por regra geral eu quase não notava a gente que ia à praia, mas nestes me fixei e a causa foi a magreza do figura, o vi e me assustei, merda, é a morta vindo me pegar, pensei, mas não vinha por mim, era só um casamento velho, ele duns 75 ela duns 70, ou ao contrário, e ela parecia gozar de boa saúde, e ele dava a pinta que ia cair morto a qualquer momento ou que esse era seu último verão, e a princípio, passado o primeiro susto, me custou tirar meu olhar da cara do velho, de sua caveira apenas recoberta de uma fina capa de pele, mas logo me acostumei a olhá-los de soslaio, jogado na areia, de bruços, com a cara coberta pelos braços, ou então no calçadão, sentado num banco em frente à praia, enquanto fingia que tirava a areia do corpo, e me lembro de que a velha sempre chegava à praia com um guarda-sol sob cuja sombra se metia ligeira, sem traje de banho, ainda que às vezes a vi com traje de banho, mas geralmente com um vestido de verão, muito grande, que fazia ela parecer menos gorda do que era, e sob o guarda-sol a velha passava horas lendo, levava um livro muito grosso, enquanto o esqueleto de marido se jogava na areia, vestindo apenas uma sunga pequenina, quase um fio dental, e absorvia o sol com uma voracidade que a mim trazia lembranças distantes, de junkies lombrando imóveis, de junkies concentrados no que faziam, na única coisa que podiam fazer, e então minha cabeça doía e ia embora da praia, comia na Bodega Marinha, uma porção de anchovas e uma cerveja, e depois passava a fumar e a olhar a praia através das janelas do bar, e logo voltava e aí seguia o velho e a velha, ela debaixo da sombrinha, ele exposto aos raios de sol, e então, de maneira irrefletida, me dava vontade de chorar e me jogava na água e nadava, e quando já me havia distanciado bastante da beirada olhava o sol e me parecia esquisito que estivesse ali, essa coisa grande e tão diferente de nós, e logo me colocava a nadar até a beirada (duas vezes estive perto de me afogar) e quando chegava me deixava cair na minha toalha e ficava muito tempo respirando com dificuldade, mas sempre olhando até onde estavam os velhos, e logo talvez caía no sono jogado na areia, e quando acordava a praia já começava a esvaziar, mas os velhos seguiam ali, ela com seu romance sob a sombrinha e ele de barriga pra cima, na zona sem sombra, com os olhos fechados e uma expressão estranha na sua caveira, como se sentisse cada segundo que passava e o aproveitasse, ainda que os raios de sol fossem fracos, ainda que o sol já estivesse do outro lado dos prédios à beira-mar, do outro lado das colinas, mas isso pra ele não parecia importar, e então, no momento de me acordar eu o mirava e mirava o sol, e às vezes sentia nas costas uma leve dor, como se aquela tarde me houvesse queimado demais da conta, e logo os mirava e logo me levantava, colocava a toalha como capa e ia sentar num dos bancos da Bodega Marinha, onde fingia estar tirando a areia que não estava nas pernas, e dali, dessa altura, a visão do casal era distinta, dizia a mim mesmo que talvez ele não estivesse a ponto de morrer, dizia a mim mesmo que o tempo talvez não existisse tal como eu acreditava que existia, refletia sobre o tempo enquanto a distância do sol ampliava as sombras dos prédios, e logo ia pra casa e tomava uma ducha e olhava minhas costas vermelhas, umas costas que não pareciam minhas senão de outro cara, um cara que ainda demoraria muitos anos pra conhecer, e logo ligava a tevê e assistia programas que não entendia nada, até que acabava dormindo na sala, e no dia seguinte a mesma coisa, a praia, o posto de saúde, outra vez a praia, os velhos, uma rotina que às vezes interrompia a aparição de outros seres que apareciam na praia, uma mulher, por exemplo, que sempre estava de pé, que jamais se recostava na areia, que ia vestida com a parte de baixo de um biquíni e com uma camiseta azul, e que quando entrava no mar só se molhava até os joelhos, e que lia um livro, como a velha, mas esta mulher o lia de pé, e às vezes se agachava, ainda que de um modo muito estranho, e pegava uma garrafa de pepsi de um litro e meio e bebia, de pé, claro, e logo deixava a garrafa sobre a toalha, que não sei pra que a tinha trazido se não sentava nunca sobre ela e nem entrava n’água, e às vezes esta mulher me dava medo, me parecia excessivamente estranha, mas a maioria das vezes só me dava pena, e também vi outras coisas esquisitas, na praia sempre tem coisas assim, talvez porque é o único lugar onde estamos todos meio pelados, mas que não tinham tanta importância, uma ver pensei ver um ex-junkie como eu, enquanto caminhava pela beirada, sentado num montinho de areia com um filho de meses sobre as pernas, e outra vez vi umas minas russas, três minas russas, que provavelmente eram putas e que falavam, as três, no celular e riam, mas a verdade é que o que mais me interessava era o casal de velhos, em parte porque tinha a impressão de que o velho ia morrer a qualquer momento, e quando pensava isto, ou quando me dava conta de que estava pensando isto, o resultado era que me vinham ideias baratinadas, como que depois da morte do velho haveria um maremoto, o povoado destruído por uma onda gigante, ou tudo começaria a tremer, um terremoto de grande magnitude que faria o povoado inteiro desaparecer no meio de uma onda de poeira, e quando pensava o que a acabo de dizer escondia a cabeça entre as mãos e começava a chorar, e enquanto chorava sonhava (ou imaginava) que era de noite, digamos três da manhã, e que saía da minha casa e ia à praia, e na praia encontrava o velho estendido de bruços sobre a areia, e no céu, junto às outras estrelas, contudo mais próximo da Terra que as outras estrelas, brilhava um sol negro, um enorme sol negro e silencioso, e eu descia à praia e me estendia também de bruços sobre a areia, as duas únicas pessoas da praia éramos o velho e eu, e quando voltava a abrir os olhos me dava conta de que as putas russas e a mina que sempre estava de pé e o ex-junkie com a criança nos braços me olhavam com curiosidade, se perguntando quem será que podia ser aquele cara tão estranho, o cara que tinha os ombros e as costas queimados, e até a velha me observava do frescor de sua sombrinha, interrompida a leitura de seu livro interminável por alguns segundos, se perguntando talvez quem seria aquele jovem que chorava em silêncio, um jovem de 35 anos que não tinha nada, mas que estava recuperando a vontade e o valor e que sabia que ainda ia viver um tempo mais.

 

 

Tradução: Bruno Laze

Original publicado no jornal El Mundo em 2000, na seção “O pior verão de minha vida”.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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