“Solitário”

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Paul Wright. O homem do sorvete. Óleo sobre tela. Data desconhecida.

A dor na nuca surgiu em um dia no qual busquei minha filha na escola e fomos almoçar em uma hamburgueria. Logo que a deixei na casa da sua mãe (minha ex-mulher), voltei dirigindo com minha mão à nuca, tentando conter a dor estranha que nunca havia sentido. Nunca tive problemas de saúde, exceto machucados esporádicos e resfriados sazonais.
No mês seguinte resolvi consultar um médico, pois a dor estava cada vez mais aguda e não passava. Ela ia e voltava com maior intensidade. Era um incômodo que, apesar de suportável, perturbava minha rotina. Fiz vários exames, raio-x e ressonância magnética, eletroencefalografia e testes psicomotores.
—Está tudo bem contigo—o médico me disse enquanto lia os resultados dos diversos exames.
—Como assim? E essa minha dor?
—Não há nada fisiológico que possa tê-la causado. Nenhuma inflamação nervosa, nenhuma distrofia muscular. Nada. Você está bem, fisiologicamente falando.
O médico me deu um atestado de cinco dias, alegando que eu estava estressado. Que eu saiba, meu trabalho não me estressava, apesar de eu precisar ficar muito tempo sentado em frente ao computador. Na semana seguinte a dor continuava latejando minha nuca, a ponto de eu precisar tomar anti-inflamatórios para amenizá-la. Marquei uma consulta com um psicólogo.
Depois de uma introdução, a psicóloga me levou a sua sala e começamos a conversar com certa descontração. Eu precisava contar sobre minha vida, embora não soubesse o que ela desejaria ouvir. Foi difícil sair alguma coisa, pois tudo que vinha à cabeça eram coisas triviais; pensei que detalhes seriam ainda mais triviais para ela.
—Você se divorciou há quanto tempo?—ela perguntou enquanto digitava em seu Macbook.
—Dois anos.
—E sua filha, tem quantos anos?
—Sete. A irmã dela acabou de fazer um ano.
—Você gosta da sua filha?
—Gosto bastante, ué. Vejo ela todas as semanas.
Ela continuou fazendo perguntas sobre minha filha e minha ex-mulher, que se casou novamente e teve outra filha. Não sabia bem o que responder e demorava a elaborar respostas. Muitas perguntas eram muito simples e por causa disso eu não sabia como responder.
—Onde você trabalha?
—Na Companhia Estadual de Distribuição de Água. Engenheiro.
—E como é sua relação com os colegas?
—É boa—respondi como se precisasse me justificar. —Todos na Companhia são bem amigáveis, e fico longe de confusão.
Ela tentou encontrar alguma rusga pessoal, algum problema que eu tinha com outras pessoas ou com algum fato inevitável da vida. Mas a verdade é que eu não tinha problema algum e aceitava bem as dores e dissabores inevitáveis do destino. Saí de lá com a promessa de que voltaria na semana seguinte.
Após três idas a seu consultório, a psicóloga me diagnosticou com somatização. Estava passando por um transtorno psicológico causado pelo divórcio que se convertia em dor física.
—Como assim? Foi um divórcio consensual, não sinto raiva de Laura pela nossa separação.
—A questão não é Laura e nem sua filha, João. Você passou a morar sozinho em uma quitinete de quarenta metros quadrados, quando antes morava em uma casa com mais duas pessoas e um cachorro. Acho que você está precisando de mais contato humano, mais interação social.
—E por que você acha que esse é o problema?
—Porque não te vi com a mão na nuca uma vez sequer durante nossas consultas.
Então eu estava solitário, segundo a psicóloga. Talvez eu devesse procurar namoradas. Mas não tinha a menor intenção de buscar relacionamentos, desde que me separei. Preferia encontros casuais, ou até mesmo pagos. Meus amigos estavam casados e eu os via pouco.
Achei o mais completo absurdo o diagnóstico da psicóloga, mas continuei fazendo consultas com ela, pois tinha criado certa afeição por sua personalidade. A dor na nuca me incomodava bastante e no trabalho cheguei a gritar com o contínuo durante uma crise. Resolvi fazer yoga. Eu era péssimo. Contei ao professor sobre minha dor e ele me recomendou uma médium. Como eu já havia tentado de todo o resto acabei agendando a sessão.
O consultório da médium era iluminado a velas e possuía várias imagens de santos e orixás. Ela era velha e parecia saber muito bem o que estava fazendo. —Você tem um fantasma apoiado em seus ombros—ela me disse com uma seriedade profunda, como se estivesse recebendo a informação de um lugar distante e sagrado.
Saí de lá com muito medo, apesar de ter achado o diagnóstico uma fábula de mau gosto. Em casa, pensei na contradição de cada análise: a psicóloga me disse solitário e a médium me disse acompanhado demais.
Na semana seguinte, numa segunda-feira, voltei da yoga às oito da manhã bastante suado. Deveria me aprontar para ir ao trabalho e fui tomar banho. A dor na nuca parecia mais branda, queimando de forma suave, como se eu estivesse em uma sauna. Decidi continuar vendo a psicóloga e a médium, mesmo que não concordasse com seus diagnósticos. Talvez isso fosse o menos importante.
Ao sair do banho o espelho estava embaçado e eu precisava limpá-lo para fazer a barba. Notei uma imagem distorcida e parcamente visível constando acima de mim, como um desenho malfeito. Olhei mais profundamente naquele ponto, tentando afigurar alguma nitidez. O fantasma tinha o rosto igual ao meu.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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