A filósofa e o engenheiro copulam e dão origem ao Messias

 

“As coisas andam polarizadas demais. Amigos parando de se falar,” confessou-me via Whatsapp um conterrâneo. Estou longe do Brasil há menos de um ano e parece que perdi a última temporada de Game of Thrones. Eu acompanhei pela internet todos os plot twists: queda de aviões (Chape e Teori), revoltas em presídios (Manaus e Natal), greve dos tiras no Espírito Santo, Cunha preso, Temer traído pelo churrasqueiro Joesley… Mas não é a mesma coisa que estar in loco, sentar numa mesa de bar e elevar o cosmos político com pessoas dispostas a xingar. O presencial faz grande diferença. Ouvir cada flexão no tom de voz enquanto se debate a merda do dia anterior é uma experiência muito mais intensa—e a cada semana é uma merda nova bombando: como disse Pondé no Jornal da Cultura, “2018 nunca vai chegar”. Pena que “elevar o cosmos” seja uma expressão muito otimista, afinal a maioria dessas discussões de boteco e mesmo as jornalísticas não são muito edificantes. A gente se acostumou a achar o nível bostola das instituições como algo natural (o famoso “É Brasil”) e por tabela achamos que reclamar é o ápice da ação civil.

Por razões que atribuo à doutrinação escolar—a maioria dos historiadores brasileiros, que escrevem os livros didáticos, acredita que a humanidade se supera com o tempo—me meto em delírios quando penso na atual Guerra dos Tronos Tupiniquim. A República de Curitiba x A Elite de Brasília. Esse caos, em minha fábula mental, irá parir uma síntese do Novo Brasil. Alguém que reúna coxinhas e mortadelas sob o mesmo guarda-chuva. Um Salvador da Pátria. Mas embora: um delírio de qualidade não poderia ser muito cafona, então esse Salvador não é uma pessoa, mas um conceito, fruto de uma trepada da Marilena Chauí com Alexandre Schwartsman. Um conceito parido de um evento hipotético. Humanas e exatas dando origem ao Espírito da Zetética—a interseção entre Ciência e Arte. Um charme racional. Talvez seja o fascista em mim falando, por mais que meus professores de história tivessem asco dessa corrente e eu tenha sido um aluno diligente. Sempre tive problemas por gostar bastante de matemática e ter seguido uma trilha acadêmica nas humanas, e engenharia social combina mais com regimes autoritários. O resultado é uma incompatibilidade discursiva com três terços da intelligentsia brasileira, aquela que norteia os memes e os debates nas redes sociais: Tico Santa Cruz e Alexandre Frota: no nível patafísico seria Chico Buarque e Ronaldo Fenômeno. Como é bom nomeá-los na mesma frase! Mas, para o bem de Ciência ∩ Arte (viu como gosto de matemática?), essas uniões não prestam, são cafonas demais e resultam em vácuo político. Isso é parte do delírio conjurado pelo noticiário. Mas é possível condenar? É possível repreender quem enlouquece ou se sujeita a sentimentos devassos por conta do que ouve? Os professores de história talvez não sejam tão incautos em suas crenças, e a contradição gere mesmo revoltas grandiosas. Espero que o Salvador da Pátria seja um conceito diluído na mentalidade coletiva, e não a ascensão de um Falso Profeta.

man in a tuxedo

Tamara De Lempicka (1898-1980). Retrato do Marquês d’Afflito. Óleo sobre tela. 1925.

O noticiário nos leva, de pouco em pouco, ao delírio coletivo. Ódio contido. Guerra civil a caminho? Por mais que eu não acredite que a História esteja marcada por uma contínua progressão, não dá pra deixar de notar que uma hora a casa cai para os filisteus, e contradições não se sustentam em longo prazo. Policarpo não foi em vão. Precisamos falar sobre Policarpo. Precisamos falar sobre os Donos do Poder, livro de Raimundo Faoro menosprezado pela intelligentsia brasileira. A roubalheira sistêmica convive com a meritocracia desde a formação de uma consciência nacional—nunca fizeram as pazes.

Em meus delírios, há dois demiurgos que copulam: a filósofa lacradora e o engenheiro belo e moral. Quem sabe um dia teremos figuras de autoridade que espelhem os herdeiros desse casal simbólico, com todas as contradições cabíveis aí. Precisamos de políticos que choram ao ver gráficos, que se recordam das técnicas claro-escuro ao ver um Rembrandt. Compositores de funk. Doutores funkeiros. Ex-celebridades voltando do retiro nas montanhas. Só assim para nos lembramos de desconfiar da classe política. Só assim para recordar a estupidez de clamar por uma figura messiânica. Este Messias Maluco, de tão delirante, conjura um corolário do qual me recuso a abdicar: “os mais aptos para o poder são os que menos o buscam”. E também os que menos existem.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

Você pode gostar...

Deixe um Comentário

Seu email não será publicado Campos obrigatórios são marcados com *