Medíocres

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Tarsila do Amaral. Morro da favela. Óleo sobre tela. 1924.

 

José César e Marcos Silva assistem ao Jornal Nacional no muquifo em que vivem há não sabem quanto tempo. Um é técnico de TI, o outro agente penitenciário. Faz muito calor e têm apenas o ventilador para amenizar. Um vizinho bebe cerveja na rua em frente ao seu carro com o som no máximo. Eles não podem pedir para baixar o som, já fizeram isso uma vez e foram ameaçados com revólver. A rua deles é dominada por tipos como esse vizinho, que adora uma cerveja e uma gritaria.

O dia foi árduo e chegaram em casa após horas no ônibus, em meio a pessoas que veem todos os dias e ouvem suas vozes e reclamações sobre a vida, todos os dias, das semanas que pareciam iguais. Um rol de eventos levou os dois a morarem juntos, após a separação com as últimas mulheres. São amigos desde moleques. José César assiste ao Jornal Nacional jogando League of Legends, enquanto Marcos malha um treino que aprendeu no YouTube, uma técnica de presidiários que dispensa tudo exceto o próprio corpo e cadeiras. No dia seguinte acordarão às 5:15. O tempo deles é mínimo para fazer o que gostam. Fora do trabalho e do trânsito, não há muito tempo. Simplesmente fazem as coisas, sem planejamento, sem gerenciamento. Não há escolha. Passam os fins de semana com suas filhas, ou em churrascos ou noitadas. Marcos Silva gosta de malhar e José César faz cursos extras de TI. Sem obsessão. As vidas se arrastam ou fluem, dependendo do ponto de vista. A vizinhança pode ter seus problemas, pode ter seus bandidos e seus idiotas, seus casais violentos e seus foragidos, mas José César e Marcos Silva pagam pouco no aluguel e não têm muito do que reclamar. Faz calor, mas o ventilador refresca. Ganham bem, em comparação aos vizinhos. Podem comprar presentes para os respectivos filhos. José César agora pode jogar no PC sem ouvir a gritaria das crianças. Marcos Silva está cada vez mais forte e é bastante respeitado no presídio. Os presos abaixam a cabeça para ele. Sua mão é a mais pesada.

A bateria do carro do vizinho arreou e a música se foi. Escutam melhor à tevê: o Jornal Nacional acabou. Começa a propaganda eleitoral. Assim como todas as pessoas que vão com eles nos ônibus todas as manhãs de trabalho, começam a engolir a informação dos partidos e propagandas elaboradas a informar o eleitor. A eleição é daqui a alguns dias. Todos falam de política; José e Marcos têm seus candidatos—irão votar para presidente no candidato antissistema, que disse que irá mudar o país. Para os outros cargos ainda estavam indecisos, até ouvirem de colegas uma sugestão: votar nulo. Era o melhor a se fazer; sentiam raiva daquilo tudo, de toda a corrupção que assolava o país. A televisão mostrava todos os mentirosos. Enquanto assistiam à propaganda eleitoral gratuita, que todos daquele bairro usavam para se informar sobre os candidatos, sentiam uma raiva interna, um ódio no coração descarregado na ideia de corrupção. A corrupção é a culpa de todo o mal do país. A fúria de Marcos Silva o ajuda com as últimas flexões, seu tríceps queimando enquanto bufa e se levanta. O ódio aos políticos está misturado com o prazer de estar em casa após horas no ônibus. A propaganda eleitoral vai passando enquanto eles terminam suas delícias: o time de José César venceu no League of Legends; Marcos Silva come um pratão de arroz com carne. A propaganda eleitoral passou. Foram obrigados a ouvi-la: era o que todos os canais transmitiam. A vizinhança toda assistiu àquela propaganda eleitoral, obrigatória para todos os canais e todas as rádios, e assim reforçaram suas próprias convicções sobre política. Engoliram a informação por obrigação e reforçaram seu ceticismo sobre aquelas pessoas que não prestavam. No final de semana José César e Marcos Silva votarão nulo para vários cargos, mas ajudarão a eleger deputados de uma coligação: foram uma vez a um churrasco do chefe deste vizinho que põe música alta, que se candidatou. Votar em alguém que conheciam lhes pareceu uma boa ideia.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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