Black metal – Como a internet transformou uma tribo musical isolada

Quando vi que Perturbator ia tocar em Chicago, corri para garantir meu ingresso. Música boa e de certa forma underground, garantia de preço baixo, sem filas para a cerveja e companhias pouco estridentes. O show seria no mesmo lugar onde Perturbator tocou pela última vez na cidade, o Reggie’s, uma casa de show meio suja e repleta de pôsteres de rock e metal. Conheci seu som através do game Hotline Miami, que explodiu ao juntar uma jogabilidade ótima, uma estética retrô-80 sensacional e uma trilha sonora poderosa. A música de Perturbator está entre as melhores do game:

O interesse levou àquela boa e velha googlada. Descobri que James Kent, o rapaz por trás do nome Perturbator, é fã de black metal, e usa uma simbologia meio from hell na arte de seus álbuns. Fiquei surpreso. Ele afirma compor “música eletrônica sombria”, embora soe mais como sintetizadores oitentistas variando entre o dançante, o ambiente e o suspense. Para a garotada de hoje, acostumada a garimpar bizarrices na internet, nada muito estranho nesse produtor musical (o nome moderno para DJ) , a não ser o fato curioso do artista ter um aspecto de metaleiro, com cabelo oleoso e uns shortinhos que só uma pessoa deslocada da sociedade usaria numa boa.

Mas devo admitir que foi meio que um choque ver essa associação. Para quem conhece um pouco da história do black metal e o perfil de seus primeiros ouvintes , chama a atenção que James Kent goste de black metal a ponto de expor isso na sua bio artística. O black metal clássico é, no campo da distorções de guitarra, o que há de mais ofensivo aos ouvidos. Para muitos dentro do próprio rock/metal, é o extremo do extremo, impossível de ser apreciado. Pois é justamente por essa dificuldade em ser apreciado que o black metal nasce, nos confins da Escandinávia, como algo “cult”: uma arte com poucos fãs, mas quem gosta, gosta muito. Isso sem falar do “satanismo” associado a várias bandas (coloquei aspas porque é muito mais um desprezo a pessoas supersticiosas e à cultura dominante do que um louvor ao coisa-ruim); isso sem falar do unblack metal, feito para cristãos que apreciam a sonoridade (ou seja, umas cinco pessoas).

É curioso que o fã de metal consiga gostar de sons ruidosos, mas não tenha ouvidos para outros gêneros. É algo bastante comum, tanto que os festivais de música não costumam ter metal, e os que têm são apenas dedicados ao rock pesado.

Eu, da velha guarda, pensei que Perturbator fosse simplesmente um diferentão, um cara com um pensamento muito descolado para minha visão de mundo démodé. Seu afastamento dos lugares-comuns não seria algo a se levar muito a sério, pois o mundo da internet é um terreno fértil para todo o tipo de gênero musical subterrâneo, e garimpeiros da fronteira da arte passam horas ouvindo todo o tipo de coisa. Os criadores de conteúdo descarregam essas influências malucas diariamente na Rede. O fato de ele ser essa figura curiosa não implicaria em muita coisa. Eu estava errado.

O evento em si era voltado para pessoas com gosto musical semelhante ao do artista. Uma das bandas de abertura, chamada Mord Frysa, era black metal tradicional. Uma banda que faz um som de black metal bastante purista abrindo para um sujeito resgatando a nostalgia dos anos 80, com um tom sombrio e diferentão, chafurdando em midis e samples. A esquisitice de Perturbator parece ter então certo apelo comercial, algo que se estendeu da internet ao mundo real o suficiente para tornar um evento tão inusitado como esse algo lucrativo. Isso foi a mais nova evidência para algo que ando vendo cada vez mais, esse novo público apreciador de metal, mas flertante com outros estilos. O que eu pensava ser apenas um movimento virtual tem força suficiente para promover um show.

E não seria o primeiro encontro nos palcos do black metal com sons muito distantes: o Deafheaven, uma banda recente com muita influência de black metal, para o desespero de alguns puristas, tocou em 2014 no Pitchfork Music Festival, no mesmo dia do rapper Kendrick Lamar. A internet é protagonista nessa fusão. Antigamente, só era possível escutar black metal após ir a lojas bastante especializadas, em locais de difícil acesso e pouco trânsito. Desconfio que muitos ouvintes mais novos não teriam a oportunidade para escutar Mayhem, Burzum e cia. se não fosse o YouTube. E ao mesmo tempo ele tem acesso a uma imensa gama de estilos diferentes, que vão ganhando esse público novo da internet com a mesma facilidade que o black metal duro e grotesco toca seus corações. Esse público cresceu e agora ganha dinheiro, podendo pagar por shows à la Mord Frysa abrindo para Perturbator.

Não são poucas as evidências de que a imagem do metaleiro estilo James Kent esteja se dissolvendo e mesclando com outras figuras. No tocante à estética, o gênero black metal evoluiu e não comporta apenas pessoas vestidas como os membros do Mord Frysa, tampouco apenas capas monocromáticas de álbuns, grafias ilegíveis e um som lo-fi estourado. O decorrer dos anos trouxe novos protagonistas ao gênero, para a tristeza dos famigerados “elitistas”: não seria tão surpreendente se aparecesse um fã de black metal no show do Mord Frysa e atirasse tomates, chamando-os de “traidores do movimento” por estarem abrindo para um… DJ. Esses chamados elitistas são ouvintes que tentaram, em vão, manter o estilo musical restrito a figuras com o mesmo visual from hell, compartilhando uma rejeição a inovações no som cru e tosco do black metal original. Um grupo de elitistas chegou a destruir o equipamento da banda Test, que estava tocando do lado de fora de um evento com bandas de black metal. Apenas ouvidos acostumados conseguiriam diferenciar o som do Test daquele da banda que estava tocando dentro, mas a distinção de gênero musical (Test toca grindcore) foi suficiente para causar uma briga.

A internet ajudou bastante ao outro público, que não frequenta os locais trevosos onde ficam as lojas especializadas. Essa gente não pode ser chamada, a rigor, de metaleira. Ao menos não no nível Massacration. Não possuem os apetrechos, o cabelão oleoso (ou uma careca), nem o olhar taciturno. Não se parecem com James Kent. É muito difícil dar uma imagem genérica deste novo público, porque é um movimento de visibilidade quase inteiramente restrita à internet. A definição visual mais abrangente parece ser hipster, termo genérico que significa, em termos estéticos, jovens modernos com um pendor para o cool, e de certa forma pejorativa, pois sugere uma certa pompa ou pretensão, além do embaraço filosófico de que hipsters não gostam do mainstream ou de modinhas, mas ao darmos um nome para esse grupo, estamos atestando seu caráter de modinha. Esse novo público parece ser relativamente grande: uma das maiores bandas do chamado pós-black-metal—justamente o black metal criado por esse público mais jovem—o Deafheaven, tem no YouTube um milhão e meio de views em seu álbum mais aclamado. Esta banda é uma das maiores do pós-black-metal, e seus membros pouco têm de visual trevoso. Os comentários no YouTube são um turbilhão de questionamentos quanto ao gênero da banda, se é black metal ou não, um “chilique de gênero”. Isso muito tem a ver com seu caráter inovador, que conseguiu mesclar pós-rock com black metal de uma forma orgânica e realmente incorporada um ao outro.

O “chilique de gênero” muito tem a ver com o asco dos elitistas com a intervenção externa no som black metalístico, que consideram algo próprio deles. Mas, a esse ponto, a internet já sufocou a maioria dos chiliquentos que tratavam a questão com seriedade, e converteu a crítica autêntica a ironia e memes, como de praxe. Um canal do YouTube, o Hipster Black Metal, é talvez o principal produtor de conteúdo irônico dos elitistas, gastando seu tempo fazendo chacota com os que produzem pós-black-metal. O Deafheaven é um dos principais alvos. Outro alvo frequente é Myrkur, a banda da musicista dinamarquesa Amalie Bruun. Ela afirma ser uma black metaleira de coração, mas seu som flerta com o new metal meloso do Evanescence (algo impensável até há pouco tempo). Anthony Fantano, um resenhista de álbuns do YouTube e fã declarado de black metal, também é constantemente atacado pelo Hipster Black Metal, com uma infantilidade tão grande que justifica o anonimato do dono do canal. Anthony possui um gosto musical variado, sendo seu apreço por metal pequeno se comparado a, por exemplo, hip hop.

É difícil traçar a fronteira entre o que seria aceitável para os elitistas e o que passa do limite. Bandas como Alcest e Hypomanie saíram do black metal para o pós-rock, e não parecem ser alvo de seus ataques. Outras como Krallice parecem ser detestadas somente pelo visual dos seus membros. Os elitistas se baseiam num conceito particular, chamado de “true”, para se referir a bandas que respeitam o ideário verdadeiro (segundo eles) do metal, e se sentem ofendidos com a apropriação da sonoridade do black metal por forasteiros. Vale notar que esses elitistas costumam caçoar do chamado politicamente correto, e ao mesmo tempo estão criticando determinada “apropriação cultural” (termo que detestam). É estranho ver tanto reacionarismo vindo de um grupo que passou a existir há menos de 30 anos.

Uma das imagens do canal Hispter Black Metal tentando fazer chacota, como se essa pessoa não pudesse gostar de black metal

 

 

Do outro lado do embate temos as novas bandas. Muitas delas são de uma pessoa só, e encarnam subgêneros como black metal atmosférico e DSBM (acrônimo em inglês para black metal depressivo-suicida). Há um documentário de altíssima qualidade sobre bandas do tipo, produzido pela Vice: One Man Metal. O número de bandas é expressivo e encontrou no YouTube um meio de divulgação de seu material, principalmente pelos canais Atmospheric Black Metal Albums e Lightfox177.

Mas esses subgêneros são anteriores à explosão da internet e não representam a nova onda, que se distanciou o suficiente do material original para gerar os chiliques. Talvez o único gênero recente, pós-YouTube, seja o pós-black metal. E não há consenso de que ele seja intrinsecamente uma música outsider ao “true”. A fronteira é turva, e parece ser muito mais direcionada à rusgas com certas bandas e o público que as ouve. E muitas dessas bandas também não ajudam: o black metal tem sido acompanhado desde cedo por um apreço à sobriedade e simplicidade, avesso ao glamour e estrelismo do mainstream. A sobriedade da velha guarda estranhou quando Ghost Bath fingiu ser uma banda chinesa para atrair a atenção. A banda está entre uma das principais da nova geração, mesmo sendo muito mal digerida pelos antigos fãs do gênero. A banda Liturgy, é outra que é vista com asco, muito embora seu último álbum, The Ark Work, seja de originalidade marcante, tendo cruzado fronteiras estéticas ao combinar diversos elementos eletrônicos, vocal limpo e metais com a velha guitarrada tremolo e os blastbeats do black metal das antigas. O asco ao Liturgy vai além da questão do som da banda, já que o líder da banda, o vocalista Hunter Hunt-Hendrix, é supostamente um filósofo e cunhou o termo “black metal transcendental” para sua própria música. No meio artístico, denominar a própria obra como um novo gênero é visto como colocar o carro na frente dos bois, e coisa de dândi pretensioso. Hunt-Hendrix não teve receio em criar um manifesto e apresentá-lo em um simpósio sobre teoria black metal. A intelectualidade em torno do Liturgy é de dar inveja aos cachimbeiros franceses mais reclusos. A pompa que acompanha o projeto de Hunt-Hendrix não parece ter nada a ver com a crueza e visceralidade do black metal, que acompanha certo anti-intelectualismo firulento, subjacente à sobriedade típica do gênero.

O diagnóstico é simples, no final. A internet trouxe os blastbeats e melodias arrastadas do black metal a um público mais amplo, que não possui nenhum impedimento para apropriar esse som da maneira que lhes melhor convém. Ao mesmo tempo, o perfil do fã elitista vai sobrevivendo e se reforçando com os mesmos mecanismos que fomentam o novo público (tal como o líder da tradicional banda Burzum que também é youtuber), reforçando suas crenças e isolacionismo, com esporádicos chiliques virtuais voltados para pessoas com gosto musical e estético diferente. O show de Perturbator (ainda para acontecer) será um novo capítulo dessa história, que também traz uma dose de otimismo: teremos uma convivência de um som tipicamente elitista com música eletrônica a anos-luz de distância estética e histórica.

 

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

Você pode gostar...

Deixe um Comentário

Seu email não será publicado Campos obrigatórios são marcados com *