Tecnoxamã

rosy cell phone

Dan Witz. Rosy cell phone. Óleo sobre tela. 2007.

 

Eu estava no metrô, saindo do trabalho, e notei, com mais atenção do que o normal para uma cidade grande, dois jovens usando seus celulares ao meu lado. Eu estava ouvindo música, mas fui tocado por uma curiosidade em observar esses dois estranhos. Estavam sentados muito próximos um do outro, encostando as coxas, mas não pareciam se importar. Não sou muito chegado a redes sociais, porém trabalho com tecnologia da informação, e foi por isso que olhei, de esguelha, para as telas dos celulares deles. Eles estavam fazendo o mesmo movimento com o polegar, arrastando a tela virtual para baixo. O movimento era muito parecido, e tinha um ritmo semelhante, como músicos dividindo uma partitura. Eles estavam usando cada um o próprio celular, e não pareciam se conhecer. Bem, não reparei muito no rosto deles, embora eu faça muito isso quando estou no metrô, pois fico criando histórias imaginárias, nem que seja por cinco segundos, para as pessoas que estão lá, mas o que eu reparei nesse caso foi no ritmo dos polegares deslizando a tela para baixo. Resolvi observar com mais detalhes. Vi que eram dois aplicativos distintos, que à distância pareciam-se muito, o Instagram e o 9gag. Os dois, e isso eu já sabia, é claro, baseiam-se em imagens e curtidas, e os usuários ficam deslizando a tela para ver a imagem seguinte, passando menos de um segundo em cada imagem. Eu perco meu fôlego quando tento fazer isso. Meu cérebro fica confuso com essa velocidade toda, e nunca me adaptei ao ritmo que eu penso ser frenético, mas é óbvio que não é, porque eu reparei, logo depois de perder o fôlego mais uma vez, que os dois jovens usando o celular pareciam bem tranquilos. Eles deslizavam por cada imagem com o polegar, no que parecia a velocidade da luz para mim, e vez ou outra apertavam o coração de curtida. Fiquei olhando para eles por um bom tempo, e sem que eu percebesse tive um estalo que mudará minha vida, e talvez a de milhões de pessoas. Por causa desse estalo comprarei minha casinha em Palo Alto e terei conversas filosóficas com tecnoxamãs. Levarei uma vida calma e pacata, longe de metrôs lotados. Concebi uma forma mais prática de usar esses aplicativos, por meio de um botão lateral no celular, pode ser o botão de bloqueio mesmo, que na nova geração só funcionará para bloquear o telefone se apertar e soltar bem rápido. Esse botão lateral, quando mantido pressionado, vai deslizar a tela do celular de acordo com a angulação. Assim as pessoas não vão mais precisar usar o polegar para passar de uma imagem para outra. Já prevejo questões como, “e como as pessoas vão dar curtidas”?, e a solução está nas novas tecnologias de reconhecimento facial, que podem ser usadas para muitas coisas além de só desbloquear a tela. As pessoas podem esboçar um sorriso para as imagens que quiserem curtir, e aí o celular reconhece o ato. Mas um sorriso daria muito trabalho para o tanto de curtidas que as pessoas normalmente dão, então a solução mais prática seria um muxoxo significar uma curtida.

A empresa onde trabalho vai adorar a ideia, certamente, e me dará uma bela promoção. Mas isso não é suficiente para eu ir morar em Palo Alto e viver como um visionário. Para isso, alavancar essa nova tecnologia não será suficiente, pois não tenho capital próprio suficiente para a pesquisa e desenvolvimento necessários para o novo recurso, logo dependeria do meu empregador atual, que vai apenas me repassar uma parcela módica dos lucros. Minha fortuna virá depois que a tecnologia tiver sido estabelecida: criarei um aplicativo com uma função nova, que dará nas fotos uma curtida ou outra reação como “haha”, “grrr”, “chateado”, etc. de acordo com a movimentação facial da pessoa no mesmo segundo em que ela viu a imagem. Não será possível modificar essa reação depois. Teremos uma rede social com apenas reações autênticas, baseadas na modificação sutil das expressões faciais no momento em que a pessoa deslizou a tela do celular para uma nova imagem. A divulgação do aplicativo ficará fácil para mim, já que serei conhecido pela minha contribuição anterior para a história da tecnologia móvel e smart. Talvez eu venda logo o aplicativo para a Apple, ainda na fase startup, porque, como eu disse, não sou muito chegado a redes sociais. Eu me vejo mais como um Elon Musk , que ficou bilionário cedo e passou a pensar na colonização de Marte.

Perdi um pouco o fôlego enquanto tinha essa ideia genial e acabei passando do ponto onde eu deveria ter descido no metrô. Mas certamente valeu a pena. Os dois jovens ainda mexiam nos seus celulares, porém não mais nos aplicativos que tanto exigem de seus polegares. Quando não precisarem mais deslizar o polegar, poderão ficar mais tempo deslizando pelas imagens, que não param de ser postadas.

2 estranhos usando celulares no metrô

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

Você pode gostar...

Deixe um Comentário

Seu email não será publicado Campos obrigatórios são marcados com *