Salomão Reis

 

Paul Wright. Hipster barburdo. Óleo sobre tela. Sem data.

Paul Wright. Hipster barburdo. Óleo sobre tela. Sem data.

Quando conheci Salomão Reis, ele tocava teclado numa banda de rock progressivo e vivia na Casa do Estudante, um alojamento destinado a alunos de baixa renda da Universidade de Brasília. Não lembro exatamente o dia em que nos conhecemos, mas eu era uma caloura e desenvolvia novas rotinas. Por causa disso eu passei a vê-lo quase todos os dias por uma época. Eu tinha ouvido que ele tinha quase trinta anos e era estudante profissional, já tendo passado por seis ou sete cursos. Ele era muito magro e tinha barba espessa e comprida, e um cabelo que não era nem longo nem curto. Parecia de descendência árabe.

Ele andava sempre de chinelos ou mocassins. Não sabia amarrar cadarços. Fedia a cigarros e chulé. Não tinha celular, o que para aquela época era algo já estranho. Acho que o vi algumas vezes com um telefone, que durava em sua mão poucos dias antes de perdê-lo ou ser roubado. Mas o telefone era algo dispensável, porque Salomão era bastante previsível. Ele tinha uma rotina mais ou menos fixa, indo e voltando da Universidade de Brasília, onde ficava uns minutos em aulas e algumas horas nos gramadões onde fumávamos maconha. Às vezes eu voltava com ele pra sua casa, onde ficávamos basicamente à toa ou fumando mais. Uma vez ele me falou que não gostava de se divertir. Ele então desenrolou um longo discurso sobre como diversão era algo que tinha nascido no século dezenove e que estava fadada a desaparecer. Era incrível como ele tinha a mente aguçada para discursar e mesmo sendo maconheiro não errava uma frase. Chegaram mais pessoas e quando já era noite resolvemos pedir comida. Um dos amigos tinha clonado um cartão fidelidade cheio de carimbos de uma churrascaria que fazia entregas, então podíamos comer de graça. Fizemos dois pedidos, um para a casa do Salomão e outro para o seu vizinho. Chegou muita carne. Mas muita gente não comeu, porque era ou vegana ou vegetariana. Salomão comeu como se nunca tivesse visto comida, mas manteve um olhar de contragosto. Em seguida subimos ao segundo andar, onde havia um buraco que dava para a laje do prédio. Ficamos lá, olhando para a noite que caía, enferma como uma máquina desconhecida. Salomão observava o céu, desatento aos arredores, com uma garrafa de Coca e um cigarro nas mãos. Escutei ele falando, mais para si mesmo (ou para Deus): “por que a gente não é herbívoro?” Salomão não gostava de conversar sobre crueldade contra os animais. Ele, assim como eu, simplesmente aceitava que o mundo era ruim nesse sentido.

Nos meses seguintes eu vi Salomão tocando em muitos shows da sua banda. Ele tocava teclado no escuro, sempre com um cigarro na boca. Quando os shows terminavam, ele perguntava à plateia qual sonata de Beethoven gostariam que ele tocasse. Ele sabia as trinta e duas de memória, ou ao menos era o que se dizia. Os primeiros cinco compassos ele sempre tocava, mas então emendava com o trecho mais frenético da Sonata ao Luar, para mostrar como conseguia tocar rápido. Começavam a aplaudir e assim terminavam os shows. Eu gostava muito daqueles eventos e sempre falei que queria comprar um disco da banda. Mas nunca gravaram e ela durou pouco tempo. Não sei se Salomão chegou a se divertir com aquilo e nunca mais ouvi ele tocar um instrumento.

Uma vez descobri um texto seu em um livro de anti-autoajuda, isto é, um livro sobre por que se deveria deixar de se preocupar com sucesso pessoal e deixar tudo a deus-dará. Foi uma leitura tosca que terminei em um dia, mas no final havia capítulos bônus, escritos por amigos pessoais do autor, e Salomão figurava entre eles. Digo sem receio que era o melhor texto do livro. Falava sobre a juventude atordoada de um rapaz do interior, leitor voraz dos existencialistas cristãos, que acreditava na divindade do presente e na amizade perpétua. Em certas passagens o texto ganhava um tom objetivo e técnico, abordando a evolução da física na compreensão do universo e na ampliação do enigma humano. O texto datava do final dos anos 2000. Logo que terminei escrevi um e-mail para Salomão, bem comprido, no qual eu fazia densos elogios e colocava minhas interpretações. Ele não me respondeu. Assim que o vi novamente comentei sobre o assunto, e ele riu. Falou que escrevia besteiras quando era adolescente, textos juvenis e alegres demais.

O tempo se passou e me formei. Fui então morar na Califórnia. Salomão continuava na Universidade. Acredito que ele esteja lá até hoje, mas nunca mais nos falamos. Às vezes faço menção de escrever-lhe um e-mail, mas desisto antes de começar.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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