literatura com psicodrama é psicodrama

Dia Azzawi. O Choro de um Lobo (Diários de um Poeta).  Óleo sobre tela. 1968.

Dia Azzawi. O Choro de um Lobo (Diários de um Poeta). Óleo sobre tela. 1968.

Uma confissão: sou um jovem escritor amador. Não tão jovem quanto se possa imaginar. Em muitas profissões, como entre atletas, eu já seria considerado velho e prestes a me aposentar. Mas no meio dos escritores, do qual considero-me um intruso, já que sou amador, me taxo como jovem. Rimbaud morreu cedo e era mais velho que eu. O importante é que ao se chamar alguém de jovem, em qualquer profissão, implica-se que a pessoa tem um potencial a ser realizado no futuro. Ou então trata-se de um caso perdido e o sujeito logo irá desistir da empreitada e tentar outra. De todo modo, tem a vida pela frente. A juventude tem esse ar de inacabação, de projetos largados pela metade ou inelutavelmente preguiçosos. Isso para um escritor é mortal. Tememos que jovens escritores não produzam senão rascunhos, o que é verdade quase o tempo todo. Quando o sujeito deixa de ser jovem, e vira apenas escritor, deu um passo grande, mas na verdade que não passa do mínimo. Quem compra livros de jovens escritores? Quantos desses pretensos artistas passarão para a próxima etapa? E quantos deixarão de ser amadores, mesmo que em vários sentidos possam ser chamados de profissionais? São perguntas cujas respostas são desanimadoras para quem se coloca como jovem escritor amador, sem dúvidas. Colocar-se assim, ser assim, significa, em vários sentidos metafóricos, sofrimento. Em um piscar de olhos tudo é tido como dispensável. Olha lá, um à-toa ou um burguês, alguém com um hobby, que dedicou tempo não para se entreter, mas para saber mais sobre seu próprio entretenimento. Vejo, cada vez com mais clareza, como ler e escrever são atividades quase inimigas, enquanto uma se assemelha a um deserto ilimitado de areias multicolores, a outra não passa de grilhões negros. Por essa razão que os escritores – e artistas em geral – flertam tanto com o sentimento de fraude. É muito estranho como algo que encanta tanto possa ser, em outro momento, visto como ridículo, insípido e fútil.

Quase todos vão falhar miseravelmente, e fracassar de novo em seguida, dessa vez com mais elegância, pois uma coleção de fracassos tem sempre uma aura poética. A morte é uma bênção para os fracassados, mesmo que para isso precise ser um tormento por um período; para escritores, de qualquer tipo, essa convivência com a própria mortalidade dá certo ânimo para continuar escrevendo, mesmo que a atividade se prove inútil do ponto de vista prático ou econômico.  A primeira vez que vi isso foi em Buenos Aires, num inverno modesto (estava quente ao Sol), quando passeei com um amigo escritor e sua mãe. Nossos passeios eram arrastados, íamos a parques onde ficávamos por horas, quando eu bem entendia que poderíamos ficar minutos. Fiquei agoniado durante dias, sofrendo em silêncio, convivendo com a ideia que a morte estava à espreita, não a morte real mas uma morte metafórica, e nem mesmo o álcool serviu para desanuviar. Foi um sofrimento maravilhoso e necessário, pois sem aquilo eu não teria engajado em algumas visões literárias. Foi o primeiro passo da minha trajetória como impostor; mesmo tão banal, foi um momento importante, entre a quietude poética e a trivialidade do ciclo da vida:

E eles ficaram no bosque, sentados ao Sol. Liam livros, comiam amendoins, ficavam em silêncio por longos minutos. Acendiam um cigarro exótico vez ou outra. Os dois escritores e a mãe de um deles. Cada um se remoía internamente, por motivos chulos, até que então essa neura passava e voltavam a olhar ao redor. O Sol mudava de caminho, e precisaram mudar de lugar para não sentirem frio. Ao fim da tarde foram caminhar por uma rua desconhecida, a Calle Aguero.

Naquele dia me tornei um impostor pela primeira vez. Voltei para o albergue e escrevi durante horas, páginas que hoje foram consumidas pelo fogo. Nunca verão a luz do dia, ou os olhos de qualquer leitor. Eram do nível de um passeio no parque como o daquele dia. Lembro-me do albergue e um russo com quem eu dividi o quarto, um sujeito com seus trinta anos, cabelo ruço, que quer dizer loiro enferrujado, todo banguela, um homem estranho, alto e magro e com um olhar distante, quase febril. Quando o conheci, perguntei-lhe porque estava tão longe da Rússia, o que é uma pergunta muito boa para ser feita em quase todas as situações parecidas. Tinha vindo por causa de uma namorada argentina, e já vivia há mais de um mês no albergue, gastando todas as economias, porque não podia dormir na casa da moça, de família linha-dura. Eu ainda estava escrevendo quando ele voltou bem tarde para o quarto, dizendo que ia sair do albergue no dia seguinte. Ele tinha uma garrafa de vodka na mão, quase vazia, do tipo que não se vende na Rússia (ou seja, um tipo muito ruim para ele). Ele pediu para eu apagar a luz, o que fiz com relutância. Mas cinco minutos depois ele saiu do quarto e eu não o vi mais. Foi num dia mais ou menos desse jeito que quis começar a escrever, no começo se tratando apenas de um registro de algumas coisas bobas, mas que chamavam bastante a minha atenção. Quantos não foram alimentados pelos eventos mais triviais, ou que, acometidos por um delírio, distorceram a realidade, em nome de uma boa história? Mas há outros, que podem muito bem tomar para si o pódio dos verdadeiros artistas, aqueles que, como Kafka, não suportam estar somente no mundo animal, que é cíclico, e precisam sentir (ou buscar) um bem-estar muito sutil, que só se consegue pela fruição estética. Kafka largou seu trabalho porque a burocracia sugava suas energias criativas, e passou então a dedicar-se à escrita. Li em algum site que o combustível principal dos escritores é o tédio; em outro site li um texto de um escritor amador, falando que queria ser considerado excêntrico, e não maluco, mas para isso precisava ser rico, já que detestava trabalhar no seu kafkódromo. O autor desse segundo texto idolatrava os anos 90, segundo ele um período mágico onde ninguém se importava com empregos. Como suporte à sua teoria, ele citava dois filmes, um deles não me lembro qual era, o outro era Pulp Fiction, com seus gângsteres, uma profissão que é espécie de anti-emprego, onde nada é rotineiro, nem sustentável a longo prazo. O único motivo que me levou a ler esse texto, que estava no site da Paris Review ou da New Yorker, foi por causa do título, que idolatrava os anos 90 como um período mágico, cujos heróis eram bons vivants ou aventureiros.  Parece mais um caso de millennial típico que não quer virar adulto, algo perfeitamente compreensível, na verdade trata-se quase de um manifesto que representa toda uma categoria humana, que alguns amigos chamam de burgopunks, outros chamam de jovens dinâmicos, ou yuppies do amor etc. Com as devidas adaptações, esse texto poderia falar de Kafka, ou de qualquer artista; há um tom universal na nostalgia pela liberdade de pensamento e ação: o autor detesta ter que trabalhar no seu emprego de 40 horas semanais – e ainda optou por gastar tempo escrevendo um texto longo reclamando disso, quando poderia estar descansando. Isso não é estranho pois, como ele mesmo aponta, a maluquice o pegou. O sofrimento do autor me é quase tangível, assim como o daquele russo do albergue, e o curioso é que às vezes esses sofrimentos são muito mais reais do que o meu próprio, apesar de eu só poder confirmar a existência do meu. Unindo-se a nós três, chega meu amigo escritor, que estava com sua mãe em Buenos Aires no parque comigo, e de repente nós quatro diminuímos perante uma ideia: os quatro confrontam a mortalidade da mesma maneira, quer dizer, sentem sua sombra pairando, e não importa se a mortalidade é uma Ideia platônica ou não, isso é apenas um pormenor metafísico, mas o fato é que nós quatro interagimos com essa quase-entidade, e essa interação é bem real, talvez bem mais que nós quatro. Dédalo (e seu criador James Joyce), quando amadureceu, chegou a conclusão similar sobre a natureza da estética: a Beleza pode não existir como uma entidade (tipo o Sol, ou a Lua), mas o sentimento de buscar coisas belas existe e isso basta para criar uma ponte entre a humanidade, maior que a sociedade humana, como toda ponte deve ser caso queira servir como meio de conexão entre dois pontos.

O maior medo da minha geração é o constrangimento. Somos todos sangue-ralos, voltados a manter uma imagem agradável de nós. Preferimos escrever lixo em vez de encarar um assunto espinhoso de frente. Com medo de ouvirmos o que não queremos, não falamos o que temos de fato para falar. Quem está na chuva é para se molhar, logo todos andam em bolhas de plástico impermeáveis. Um monte de gente hoje somatiza o constrangimento, ficando constrangida novamente após se lembrar de um evento passado. Antigamente não era assim, nos bons velhos tempos que imaginamos que tenham existido (claramente produtos da nossa cabeça, mas é possível imaginar um camponês medieval, com um leque de experiências extremamente limitado, que somatiza unicamente as lembranças de pecados ainda não confessados ao pároco). O embaraço atordoa a nossa criatividade, com isso é muito difícil imaginar um escritor millennial com um grau aceitável de qualidade literária. A saída mais fácil é não escrever nada, para não precisar lidar com a própria falta de qualidade. A saída mais difícil é enfrentar a si mesmo e conviver com amigos imaginários. Foi assim que me vi quando escrevi meu primeiro livro por completo, um relato – distorcido, por causa do efeito de várias drogas – das memórias que tenho dos anos 2006-2013, que foram muito loucos. À época, senti que precisava contar ao mundo como é pertencer a uma gangue, como é participar de um movimento político de grande escala e com uma dimensão inescrutável (as jornadas de junho de 2013). Não sei bem como, mas concluí o livro, que nunca verá a luz do dia, depois de ter me atormentado por muito tempo.

Junho de 2013 foi um mês surreal em que tudo parecia possível. Eu vivia em Brasília, e no primeiro dia de manifestação vi, da minha janela, uma turminha em frente ao Congresso, muito pouca gente e muito poucos policiais. Fizeram o que quiseram, parecia que estavam em um protesto desses de universidades públicas, que seguem um mesmo roteiro há décadas e parecem não levar a lugar nenhum. Mas logo passou daquilo para algo bem mais sério, e logo víamos na televisão uma onda que tomou conta de quase todas as grandes cidades, com carros quebrados e lojas incendiadas. Os poderosos ficaram preocupados e nós – pensávamos ser a ralé – passamos a sonhar com um outro país. Eu fiz cartazes com uma agenda muito particular, mas ao mesmo tempo muito universal, porque representava toda uma cultura emudecida pelos conservadores, do qual os nostalgistas dos anos 90, daquele autor maluco, são um subgênero. Protestei pelo cultivo caseiro de maconha e pelo fim dos privilégios dos militares. Uma ou duas semanas depois do protesto humilde que vi pela janela, houve outro com dez vezes mais pessoas. Levei tambores e garrafas de vinagre, junto com meus cartazes. Nesses dias eu discuti com amigos a possibilidade de invadirmos o Palácio do Planalto, ou o Congresso, e expulsar os políticos de lá. Parecia algo extremamente plausível. Falávamos sobre a República e o que deveria substituí-la. Alguns poucos achavam a ideia ruim, mas naquele mês ficaram quietos e não manifestaram suas posições. Talvez, em algum nível, todos nós que estávamos na rua protestando nos tornamos irmãos espirituais, aguardando a vez de hastear a bandeira brasileira em defesa dos nossos interesses. Essa irmandade espiritual pode ter nascido e morrido em junho de 2013, e aguardamos novamente a ressureição de algo maior que nosso próprio ego.

Os anos se passaram e saí do Brasil, indo morar em Chicago. Meu temores cresceram, me vi presa do excesso de informação e estímulos. Fui digerido cada vez mais pela falta de ego, que fazia eu estar contente com aquilo que a vida me dava. Eu estava feliz. Isso não foi suficiente; precisei criar tormentos fantasmais para me assombrarem em algumas horas do dia. Aquele rapaz que em Buenos Aires estava inquieto, mesmo em um dia de sol num parque zen, continuava batendo a minha porta. O parque ficou grande, e não consegui ver até onde ele ia. Não sei bem qual é a relação dessas memórias com suas influências criativas. Mas os tormentos eram reais, como as neuras do narrador de Tabacaria, do Fernando Pessoa, neuras que convivem com um cotidiano banal e místico. O auge desse meu mal-estar (como coisa real por dentro), que convive com um bem-estar (como coisa real por fora), foi quando fui ao cinema assistir a um documentário de João Moreira Salles, cujo nome esqueci. Falava sobre a revolta estudantil de maio de 68 na França. Achei curioso o documentário conter um teor cético quando à importância daquele movimento estudantil francês – falava que a maior marcha tinha sido no mês seguinte, contra o movimento e pró-establishment. A impressão que o documentário dava era que, como diria Belchior, apesar de tudo o que fizeram, a juventude rebelde envelheceu e hoje são os mesmos e vivem como seus pais, já que não houve revolução. A luta foi em vão, lamenta nas entrelinhas Moreira Salles, um conhecido esquerdista, o que torna a atmosfera cinzenta mais curiosa. Em um dado momento, Moreira Salles, que também é o narrador, fala sobre outro documentário, Morrer aos Trinta Anos, feito por participantes do movimento de 68 um bocado de anos depois, e que conta a trajetória de Michel Recanati, um comunista que acabou se matando com 30 anos, se jogando na frente de um trem. Recanati participou de atividades violentas, criou ligas comunistas, organizou levantes populares, se chocou com a Guerra do Vietnã, e mais uma porção de coisas heroicas, muito maiores do que seu próprio ego, tentando, talvez involuntariamente, alcançar a grandeza, mas o que mais lhe atingiu foi quando sua namorada morreu de câncer, o que não conseguiu aceitar, acabando por tirar a própria vida. Ele passou 13 anos na luta revolucionária, até um drama pessoal o levar para sempre. Essa é a história oficial, e Moreira Salles, que narra em tom taciturno enquanto assistimos imagens mudas em preto e branco da trajetória de Recanati, nos conta que havia algo muito problemático naqueles jovens, os amigos próximos de Recanati que fizeram o documentário, porque já estavam nostálgicos do passado com aquela idade. Saí do pequeno cinema nauseado, pensando em como eu estava replicando esse comportamento de nostalgia antecipada, que imediatamente concordei que era doentio, por algum motivo que não sei explicar. Lembrei-me do livro que escrevi, onde tentei com certa sutileza depositar memórias sobre junho de 2013, e quanto aquilo estava envolvido (muito mais do que deveria) com uma tentativa de registrar uma visão subjetiva sobre um evento histórico, abarrotada de outros registros sobre o comportamento de um eu antigo, um eu transgressor e membro de gangue que jaz no passado. Não eram os anos 90, mas as memórias eram próximas a esse período idealizado pelo triste autor que queria ser excêntrico. Concluí que não estava na hora de deturpar o passado recente dessa forma, após ter assistido aquela passagem do documentário de Moreira Salles. Tudo pode, no entanto, ser visto como uma confusão, e o que importa é o enredo humanista: Morrer aos Trinta Anos foi na verdade motivado pelas saudades que os amigos sentiam de Recanati.

Raymond Aaron chamou maio de 68 de psicodrama. Recanati atuou de 1965 a 1978, quando morreu. Um ativista de esquerda que não morreu pela causa, mas por um drama pessoal. Talvez isso não deixe de torná-lo um mártir dos tempos modernos. Não há nada a fazer senão abraçar o histérico, ou o psicodrama. Os últimos anos foram felizes, o que significa que não fui um bom artista amador, pois não senti necessidades inúteis. Não passarei de um jovem escritor amador se continuar deixando a felicidade me guiar, sem as agruras de alguém que pensa ter vendido a alma ao diabo. Tudo que concluí como escritor até hoje foi guiado por memórias pessoais, por uma vontade de registrar, com uma estética digna de um catalogador, distante do calor da arte. Às vezes vejo coisas que desmotivam a acreditar na importância dessa subjetividade, como se elas não fossem dignas de nota, como aquele texto do sujeito que gostava dos anos 90, ou o documentário de Moreira Salles. São obras que esfriam o espírito, deixando tudo mais melancólico, o que dá mais ânimo para escrever. Em outras palavras: dias cinzentos e arte pessimista são esteticamente animadores. Tamanha irracionalidade não pode ser senão histeria. As memórias de passeios no parque em Buenos Aires nutrem a arte, assim como a história de Renati também é nutritiva para os ativistas do futuro. Estou no meio dessas duas memórias, entre o subjetivo e a história mundial, e o autoengano flerta diariamente com a grandiosidade da arte. Cheguei à conclusão de devo ter flutuações bizarras de humor, que contaminam a minha escrita, e talvez deva procurar um psicanalista. O indivíduo na História não é nada. No universo da literatura, inspirações são consumidas como labaredas de pólvora, sem deixar resquícios, a não ser poluição. A morte, o sofrimento, a glória e o psicodrama são o que sobram para entalhar o espírito do escritor, seja ele pequeno ou grande, velho ou jovem.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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