Sobre a polêmica dos booktubers

John Currin. Stamford depois do brunch. Óleo sobre tela. 2000.

John Currin. Stamford depois do brunch. Óleo sobre tela. 2000.

O mundo da arte é uma bolha. É uma jornada perpétua para entrar em uma bolha. Contrário ao senso comum, nesse caso o isolamento é bom, pois a arte precisa se isolar de outros mundos, como o do mercado e do marketing, para criar um mundo próprio, que surge à medida que se distancia dos demais: artístico, poético, meditativo, transcendental. Para a arte existir, todo o resto da realidade precisa sumir, mesmo que por alguns segundos apenas. A fruição estética requer, então, entrar numa bolha. O tempo de imersão varia, mas nunca é muito longo. Às vezes uma obra de arte tem como condição estar fora dessa bolha por um período, justamente para que haja uma entrada triunfal depois. Técnicas para isso não faltam (um clichê que nunca me canso é o dos filmes de terror, que começam sempre mostrando tudo tranquilo). Para experimentar a arte é necessário uma suspensão do mundo rotineiro, uma espécie de êxtase.

Esta é uma idealização da arte. No mundo real, não existe tal bolha. É apenas um desenho conceitual. A arte se mistura com o mundo econômico, o turístico, etc. e a soma de todos eles resulta na realidade. Às vezes, uma obra de arte tem muito menos o pé nessa bolha, estando mais distribuída em outros mundos (exemplo: música de elevador). Nessa concepção de arte, entretenimento é seu irmão gêmeo maligno. Isso significa que, quando a gente lê um livro ou escuta uma música pra se distrair, e não pra apreciar, não estamos na bolha da arte. Essa dicotomia carrega uma rusga histórica, que na literatura é bem relevante. Best-sellers x clássicos. Ficção x literatura. Etc.

Não vamos entrar em pormenores. O que importa aqui é que, qualquer que seja seu conceito de arte, não há como negar que há um mundo, de artistas e apreciadores, que está mais ou menos destrinchado das agruras do mundo moderno: escritores que podem passar dias ponderando sobre o que vão escrever, com independência financeira (exemplos: Pynchon e Bioy Casares, que nunca precisou trabalhar), com tempo (um dos principais requisitos da bolha da arte é a capacidade de passar 30 minutos pensando em algo, em vez de 30 segundos), etc. O ócio e o tédio já foram elogiado centenas de vezes como precursores da vida artística. O mesmo vale para a apreciação da arte, quem vai a museus sabe que requer tempo, quem vai ler um Ulisses da vida sabe que precisa de concentração, e que levá-lo à praia vai ser infrutífero, mesmo no conforto do Kindle. O tempo se estica no mundo literário: a qualidade de um texto é inversamente proporcional à pressa em publicá-lo, e tal é uma das maiores qualidade da comunicação escrita, essa possibilidade de lapidar em busca da frase mais estética, do parágrafo mais expressivo e tal. A literatura seria uma arte muito mais pobre se não tivesse o tempo como aliado.

Agora vem a pergunta: o mundo da crítica é uma bolha? Como se relaciona com a bolha da arte? Ronaldo Bressane, o primeiro escritor a condenar publicamente os booktubers, desencadeou uma ampla discussão sobre essa nova forma de relacionar leitores com livros. O problema todo parece girar em torno da explosão do fenômeno: mais e mais assistem vídeos no Youtube, uma forma de consumo distanciada da bolha da arte, em escala industrial, sem que haja, aparentemente, tempo suficiente para o pensamento se esticar, dar reviravoltas, se aperfeiçoar até chegar a uma forma plena, como acontece nos bons textos críticos. Os booktubers parecem não fazer parte do mundo da crítica, não pelo menos da forma que esta é tradicionalmente concebida: como uma forma de expor os diversos significados de uma obra de arte, de condenar ou de exaltar coordenadamente, tendo o cânone — i.e. a bolha — como parâmetro. Eles são mais próximos de veículos de publicidade. De fato o são: é raro ver um vídeo de booktuber falando mal de um livro e geralmente comentam sobre best-sellers. O eixo da polêmica foi justamente o caráter publicitário, cada vez mais forte, visto que muitos booktubers cobram para divulgação de autores iniciantes ou pouco conhecidos.

A polêmica ganhou um ápice esta semana com o texto de um amigo de Bressane, Paulo Roberto Pires, professor de universidade federal, ou seja, provavelmente mais próximo da bolha da arte, um tradicional habitante da Torre de Marfim. Pires atacou os booktubers, como novos asseclas do Capital, sucateadores da arte, gente que se limita a comentários rasteiros, o mínimo necessário para que o dinheiro caia na sua conta. Se não ganham dinheiro com seus vídeos, são então amadores, pessoas comuns sem a referência necessária para elaborar comentários edificantes sobre obras literárias. Pires, em seu texto, claramente visualiza essência a arte como estar dentro da bolha — a crítica, para ter qualidade, também precisa ter a sua própria.

O que vem acontecendo, devido à ascensão das redes sociais, certamente está levando o debate artístico para o lado da indústria cultural, isto é, uma larga produção de conteúdo o qual somos incapazes de consumir, seja porque dedicamos pouco tempo para alcançar a plenitude necessária, seja porque os criadores de conteúdo não se dedicam para fazer algo pleno. Basta ver que o debate em torno do texto de Pires acontece principalmente nas redes sociais, onde cada um se limita a comentários curtos e redundantes; Bressane não saiu das redes em sua crítica. (O fato de eu estar escrevendo aqui não contribui nem um pouco para o alcance do meu texto. Pelo contrário.) Por outro lado, podemos dizer que isso é algo indesejável? Soa como algo elitista e aristocrático, como se o mundo da arte devesse estar limitado ao seleto grupo de pessoas com tempo e dinheiro (e “cultura”?) necessários para escapar dos grilhões da realidade material. É razoável considerar que, num país de analfabetos funcionais, ler “qualquer coisa” é melhor que não ler nada. Mesmo best-sellers são muito caros no Brasil, e não encontramos aquelas edições com papel de baixa qualidade, tão comuns em outros países. O maior perigo dos booktubers não está na qualidade da informação, mas em sua capacidade de suplantar a sua razão original de ser: estimular as pessoas a ler, ou a pensar mais sobre o que leram. Desconfio que haja muitas pessoas consumindo mais vídeos de booktubers do que lendo — sintoma do pesadelo da Morte do Real, o simulacro de Baudrillard, onde a realidade (ou a bolha) é destronada pela sequência irrefreável de estímulos externos da Sociedade da Informação.

Bruno Laze

Vive numa torre de vidro, na beira de um lago que muda de aparência todos os dias, sob o hipnotismo de nuvens, neblina e luz solar.

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